Polissíntese
pequenas e tão diversas sínteses do tão pouco que meu limitado olhar consegue captartanto tudo e eu aqui no quarto
eu vi o jarro cair ao chão com estrépito e a porcelana estilhaçando-se em mil pedaços invisíveis a olho nu, e gotas de água em agonia, e as rosas ao chão, não mais amparadas. eu vi tudo isso e não poderia mexer-me para impedir.
eu vi o pequeno desastre mas não vi todo o resto. todos os risos, sorrisos e danças não coreografadas que aconteciam ao mesmo tempo tanto aqui na esquina quanto na cidade longíqua. todas as músicas boas e ruins que tocavam em alto e bom volume, eu não as ouvia. todas as fotografias que eram tiradas, eu não era nem a fotógrafa nem a modelo. todas as taças de vinho tinto que eram tomadas, não as degustei. todas as conversas sobre tudo e nada, as sérias e as frugais, não me tinham como participante. todos os trens partiram sem mim, e também os metrôs, as aeronaves, os automóveis, as motocicletas. todos os negócios em grandes e pomposos prédios empresariais foram fechados sem que eu soubesse. todos os encontros casuais ocorreram sem mim. i wasn’t there, I couldn’t be.
não houve frio na barriga, euforia, melancolia, fúria em mim. não poderia haver. eu estou em lugar nenhum e daqui não se é possível sentir. o tempo consome-se como um cigarro em chamas e todos sabemos que não é possível reconstituir um cigarro que já foi queimado. e o tédio me subia pelas mãos e pelos braços até me ter inteira. ainda me têm.
trying to fit
recortar cuidadosamente e com tesoura sem ponta as partes de mim que causam a repulsa, o olhar de soslaio, o maldizer.
gastar o tempo do sorriso em tentativas de caber onde me querem. ou sorrir por que caibo?
e se não couber?
ouço alguém gritando alto lá de cima, em tom ríspido: tentar não basta. é preciso conseguir. do contrário, você falhou, fraquejou, fracassou. é, pois, falha, fraca, fracassada.
eu venho tentando, viu, moço? venho me esforçando, fazendo minha parte. tenho esperado muito pelo que não vem. eu enxugo minhas lágrimas na minha camisa antes que elas caiam, para que nenhum ser me julgue fraca, mas minhas forças se esvaíram faz tempo
I mean, it’s ok if it all change, but…
Eu sinto como se houvesse queimado um fósforo sobre uma folha de papel. Queima, queima rápido. De fechar e abrir os olhos, o que eu tinha não está mais lá.
And so I wake up every morning to do what I’m supposed to. I sincerely feel like an operator of my own life, you know, just doing it all when I should, without actually wanting to. I’m marching through my future as they said I should, but I constantly ask myself why. I get no answers. I don’t like getting no answers, so I just stop wondering. You know, it’s easier not to think about it. By the times I don’t wonder, I can even laugh! Sometimes I pretend I’m the happiest, most beautiful and richest kid in town. I like pretending. It’s still a way to live things I won’t.
Sometimes, at night, when there’s silence and I can hear me breathing, I get distracted. And then I think. The toughts come like the wind, sweetly, softly, before I can notice them. Then, when I realize, I’m completely absorbed by them. I look at the mirror and try to feel in the past. I like the past. It was easier. My mom said I can’t come back to the past neither know about the future, but I wish I could. She said I must live in the present. But mommy, I don’t wanna live in this present, I don’t like it. So change it. But how? Go follow your wishes, in order to make them true, she said.
I don’t know what my wishes are. I wish I could have friends. I wish I could climb a really high mountain, and see the whole world from above. I wish I could swim in the air, smelling all the smells in the world and catalog them in my “Book Of Smells”. I wish I could eat a chocolate cupcake now. I wish I could draw well, in order to draw my wishes and glue them on my bedroom’s wall – and then it would be easier to pretend they were true. I wish I could sing at a big stage across the street and be applauded by all the neighbors. I wish I have a boyfriend, and he would give me flowers. Yellow flowers. I like yellow, it’s easier to pretend I’m living good things in a yellow background. I wish I could actually get up from this table and follow my wishes in order to make them true, as my mom said.
But I’m kind of stuck in this routine when most of the time I try not to feel real, when most of the time I pretend I’m someone else. When I stop pretending, I usually cry. I don’t like crying. Mom says only bad kids cry. I don’t wanna be a bad kid, so I stop crying. I’ll call her tonight. I’ll tell her I love her, and I’ll tell her I don’t like my daily routine, and I’ll thank her for asking me to follow my wishes. I won’t actually do this, but while I was guessing what they were, I didn’t want to cry at all. I’m going to sleep now. It’s late. I hope I wake up everyday in the day before, in order to get there, when I was happier. Tomorrow I’ll wake up in yesterday, amen.
até o despertar
ela diz que eu vivo reclamando, mas nem mastigando muito eu engulo aquelas palavras metálicas invólucras disformes. eu fiz como se deve, mastiguei muitas vezes, mas nem toda força do mundo me faz deglutir tal massa dissonante de palavras. derramei grandes e pesadas lágrimas pra lavar meu rosto sujo de sangue. eu não sei se era mesmo sangue, mas na boca sentia gosto de sangue, sangue de corte de espelho quebrado, porque sonhei noite dessas que todos os espelhos do mundo quebrariam e eu pisava sobre os cacos descalça e plena, enquanto cozia meu próprio veneno em banho maria. aí acordei assustada, com ela e sua beleza e dedo em riste, falando e mais falando sem dó sem vontade, não quis força nem pra suplicar que parasse, passei os próximos minutos tentando engolir tais palavras sem sucesso e num pedaço desse de segundos em que a gente às vezes consegue se distrair da agonia consegui adormecer novamente. o sono é torpor temporário de alívio das dores mais crônicas mais interinas mais infinitas. até o despertar
Me olhe dentro
Me olhe dentro
Despetalam-se as cascas
São micro-vestígios das imensas máscaras minhas.
Insisto em vestir-me em várias,
Em querer ser multi – sou una.
Procuro no espelho a minha imagem em pedestal
Descarto borrachas por almejar a certeza.
Em vão. Sou falha. Incompleta.
Emudeço diante dos véus negros da insegurança.
Por detrás das mil camadas de não-sou
Mantém-se o pesar, o hábito do descontentamento
Por detrás dos dentes muito brancos,
Do sorriso sincero e plástico,
Um coquetel de dores, lágrimas e dissabores
Mantém-me o amargo aos lábios.
Me olhe dentro
Mas tome cuidado, menino
A dor não é em tecnicolor
A passagem é só de ida
E o ritmo do mundo segue intacto e célere
Alheio a todas as grandes feridas.
Quis significar-me, fazer-me plena.
De súbito sei bem dos meus descaminhos
Da ausência de recomeços
Do simples do óbvio do inteligível
Se minhas luzes seguem se apagando, é porque sou mais inteira no escuro.
razões e não-razões para seguir escrevendo
minha escrita é podre e sem cor, me pergunto – pra que escrevo? qual meu propósito? se só descarregar idéias e sensações então pra que publicar tais palavras? meus temas são sempre ego-relacionados, minhas palavras repetidas e exageradas, com meu idealismo imaturo, com meus sentimentos eminentes, minha amargura escondida por trás de camadas enormes de sensações das mais diversas. estas mudam. o gosto amargo de fel se mantém. as palavras são sem propósito, sem cor, sem intencionalidade. não tenho o poder de escrever boa ficção, nem grandes idéias para escrever grandes textos. de modo bem mediocre, sigo vomitando palavras em papéis encardidos, para poucos ou nulos leitores, usando as letras como válvula de escape, as vírgulas como possíveis freios.
tudo isso é verdade, mas seria sacrifício dos maiores me abster do vício da escrita. eu não me sinto capaz. seguirei escrevendo, portanto.
e o inverno no leblon é quase glacial.
o tédio ante a perspectiva de conhecimento
Estava eu um dia, num longíquo ano escolar, assistindo uma aula à noite. Uma menina cujo nome não me cabe citar me fez, então, uma pergunta que me fez hesitar.
Era uma dessas mesas redondas, cujo objetivo era apenas a discussão dos mais diversos assuntos. A presença não era obrigatória. O objetivo único era o debate e a aprimoração de conhecimentos. Fui. Fui e levei comigo um papel e um lápis. Eu sempre lidei melhor com as palavras escritas. Sempre fixei melhor aquilo que eu escrevo. Não é que eu fosse ler depois – e não li – mas por alguma razão me era importante fixar aquelas palavras em mim. Guardá-las. Nestas mesas redondas reuniam-se os melhores professores que já tive. Aqueles que podemos, sem hesitações, chamar de mestres. Eu queria guardar aquelas palavras em mim.
Levar papel e lápis foi um ato natural pra mim. Para aquela menina, não. Ela perguntou, com um ar de grande estranhamento “Por que você está anotando? Não cai na prova!”. Hesitei. Pensei gravemente no quão volátil é o conhecimento para algumas pessoas. Me nauseia pensar em uma vida inteira de conhecimentos voláteis que se esvairão imediatamente após a prova.
Comecei, então, a observar o tédio ante a perspectiva de conhecimento. Os bocejos. O estar ali sem estar. Sempre. Constante. Initerrupto. Uma coisa é dormir numa aula de física, numa outra de história. Uma outra é passar inerte por onze anos de vida escolar. Dou méritos à minha escola por discutir os mais diversos assuntos e das melhores maneiras. Por se preocupar com a formação dos que ali estão. Acho pouco crível que alguém consiga não se abalar, influenciar, interessar por quaisquer desses estímulos.
Logo enxerguei o óbvio. Nós vamos a escola todos os dias para estudar, com o objetivo de passar nas provas. Tendo mérito em todas as provas, passamos então de ano. Tendo, então, médias suficientes para passar em todos os anos, estudamos para o vestibular. Passado o vestibular, estudamos ainda mais para ainda mais provas, até que culmina em um diploma, um bom emprego, e o dinheiro que tanto sonhamos. Este é o destino que esperamos – obviamente nem sempre é assim que acontece. You can’t always get what you want, já diziam os bons.
Boa parte das pessoas vê o conhecimento como meio para atingir seus objetivos. Tão logo o dinheiro se estabelece estável em suas mãos, o conhecimento se evapora, se esvai. É por isso que a classe média é a que tem mais formação – os pobres são quase estáveis em suas mazelas, os ricos, quase estáveis em suas fortunas. A classe média, retrato da instabilidade financeira, do “tenho hoje, não sei amanhã” é a que mais estuda, pra garantir seu dinheiro futuro.
Eu meio que vou na contramão a isso tudo, viu. O conhecimento para mim é objetivo, e não meio. Eu aprendo porque eu quero, porque tenho vontade, tenho urgente vontade. Quando aprendo o que eu não quero, é pra ganhar dinheiro para viajar e seguir aprendendo. O dinheiro para mim é meio, e não objetivo. Poder conviver com o que me interessa, ter boas reflexões, boas conversas, conhecer pessoas interessantes, lugares interessantes – é esse o meu objetivo de vida. Eu não quero uma vida quadradona, eu que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar.
Eu não sou a única. Há outros. A disseminação da educação não homogeiniza os resultados. Ainda que as influências sejam as mesmas, são poucos os que se movem pela vontade de aprender. A vontade de aprender, certamente, é idiossincrática.
É triste e resignante perceber um mundo de almas desertas, onde culmina uma atmosfera letárgica de quem se senta em vida para esperar a morte, de quem aceita a mediocridade como parte de si – de quem segue planos de vida pré-estabelecidos por qualquer alguém. Mas eu respiro, ainda, aliviada, ao perceber que, neste deserto de almas idênticas, as que destoam muito rapidamente reconhecem-se.
[este texto foi reescrito, porque apagado pelo wordpress. me doeu muito perder as palavras originais, porque realmente tinha gostado do anterior - é muito raro eu gostar do que eu escrevo! - esse é apenas um protótipo, uma cópia mal-feita. quis reescrever para registrar em mim tais reflexões. mas estas não são as palavras originais. que fique aqui o meu enorme repúdio aa tecnologia e aa sua mania de apagar as coisas para sempre.]
Ensaio sobre a cessão
ceder é operar a mudança que o outro deseja sem alteração do status quo, das estruturas. sem conflitos. ceder é, também, estratégia de dominação. ceder é propor uma coalizão. É favorecer os certos, mas também, os errados.
Vai soar fatalista e exagerado, mas agora me surgiu tal reflexão: não é que a paz não seja válida e necessária, mas as cessões da história são e foram, muitas vezes, medidas estratégicas para manter intacta a impunidade dos vis.
É preciso desenvolver em mim a consciência da não-superioridade, da não pertencência. É preciso engolir sem reclamos a poeira do asfalto e ainda assim, levantar-me lúcida e muito consciente de mim.
Get up, stand up, don’t give up the fight – já diziam os bons.

