Estava eu um dia, num longíquo ano escolar, assistindo uma aula à noite. Uma menina cujo nome não me cabe citar me fez, então, uma pergunta que me fez hesitar.
Era uma dessas mesas redondas, cujo objetivo era apenas a discussão dos mais diversos assuntos. A presença não era obrigatória. O objetivo único era o debate e a aprimoração de conhecimentos. Fui. Fui e levei comigo um papel e um lápis. Eu sempre lidei melhor com as palavras escritas. Sempre fixei melhor aquilo que eu escrevo. Não é que eu fosse ler depois – e não li – mas por alguma razão me era importante fixar aquelas palavras em mim. Guardá-las. Nestas mesas redondas reuniam-se os melhores professores que já tive. Aqueles que podemos, sem hesitações, chamar de mestres. Eu queria guardar aquelas palavras em mim.
Levar papel e lápis foi um ato natural pra mim. Para aquela menina, não. Ela perguntou, com um ar de grande estranhamento “Por que você está anotando? Não cai na prova!”. Hesitei. Pensei gravemente no quão volátil é o conhecimento para algumas pessoas. Me nauseia pensar em uma vida inteira de conhecimentos voláteis que se esvairão imediatamente após a prova.
Comecei, então, a observar o tédio ante a perspectiva de conhecimento. Os bocejos. O estar ali sem estar. Sempre. Constante. Initerrupto. Uma coisa é dormir numa aula de física, numa outra de história. Uma outra é passar inerte por onze anos de vida escolar. Dou méritos à minha escola por discutir os mais diversos assuntos e das melhores maneiras. Por se preocupar com a formação dos que ali estão. Acho pouco crível que alguém consiga não se abalar, influenciar, interessar por quaisquer desses estímulos.
Logo enxerguei o óbvio. Nós vamos a escola todos os dias para estudar, com o objetivo de passar nas provas. Tendo mérito em todas as provas, passamos então de ano. Tendo, então, médias suficientes para passar em todos os anos, estudamos para o vestibular. Passado o vestibular, estudamos ainda mais para ainda mais provas, até que culmina em um diploma, um bom emprego, e o dinheiro que tanto sonhamos. Este é o destino que esperamos – obviamente nem sempre é assim que acontece. You can’t always get what you want, já diziam os bons.
Boa parte das pessoas vê o conhecimento como meio para atingir seus objetivos. Tão logo o dinheiro se estabelece estável em suas mãos, o conhecimento se evapora, se esvai. É por isso que a classe média é a que tem mais formação – os pobres são quase estáveis em suas mazelas, os ricos, quase estáveis em suas fortunas. A classe média, retrato da instabilidade financeira, do “tenho hoje, não sei amanhã” é a que mais estuda, pra garantir seu dinheiro futuro.
Eu meio que vou na contramão a isso tudo, viu. O conhecimento para mim é objetivo, e não meio. Eu aprendo porque eu quero, porque tenho vontade, tenho urgente vontade. Quando aprendo o que eu não quero, é pra ganhar dinheiro para viajar e seguir aprendendo. O dinheiro para mim é meio, e não objetivo. Poder conviver com o que me interessa, ter boas reflexões, boas conversas, conhecer pessoas interessantes, lugares interessantes – é esse o meu objetivo de vida. Eu não quero uma vida quadradona, eu que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar.
Eu não sou a única. Há outros. A disseminação da educação não homogeiniza os resultados. Ainda que as influências sejam as mesmas, são poucos os que se movem pela vontade de aprender. A vontade de aprender, certamente, é idiossincrática.
É triste e resignante perceber um mundo de almas desertas, onde culmina uma atmosfera letárgica de quem se senta em vida para esperar a morte, de quem aceita a mediocridade como parte de si – de quem segue planos de vida pré-estabelecidos por qualquer alguém. Mas eu respiro, ainda, aliviada, ao perceber que, neste deserto de almas idênticas, as que destoam muito rapidamente reconhecem-se.
[este texto foi reescrito, porque apagado pelo wordpress. me doeu muito perder as palavras originais, porque realmente tinha gostado do anterior - é muito raro eu gostar do que eu escrevo! - esse é apenas um protótipo, uma cópia mal-feita. quis reescrever para registrar em mim tais reflexões. mas estas não são as palavras originais. que fique aqui o meu enorme repúdio aa tecnologia e aa sua mania de apagar as coisas para sempre.]

