eu vi o jarro cair ao chão com estrépito e a porcelana estilhaçando-se em mil pedaços invisíveis a olho nu, e gotas de água em agonia, e as rosas ao chão, não mais amparadas. eu vi tudo isso e não poderia mexer-me para impedir.
eu vi o pequeno desastre mas não vi todo o resto. todos os risos, sorrisos e danças não coreografadas que aconteciam ao mesmo tempo tanto aqui na esquina quanto na cidade longíqua. todas as músicas boas e ruins que tocavam em alto e bom volume, eu não as ouvia. todas as fotografias que eram tiradas, eu não era nem a fotógrafa nem a modelo. todas as taças de vinho tinto que eram tomadas, não as degustei. todas as conversas sobre tudo e nada, as sérias e as frugais, não me tinham como participante. todos os trens partiram sem mim, e também os metrôs, as aeronaves, os automóveis, as motocicletas. todos os negócios em grandes e pomposos prédios empresariais foram fechados sem que eu soubesse. todos os encontros casuais ocorreram sem mim. i wasn’t there, I couldn’t be.
não houve frio na barriga, euforia, melancolia, fúria em mim. não poderia haver. eu estou em lugar nenhum e daqui não se é possível sentir. o tempo consome-se como um cigarro em chamas e todos sabemos que não é possível reconstituir um cigarro que já foi queimado. e o tédio me subia pelas mãos e pelos braços até me ter inteira. ainda me têm.

